ENDEUSADORES DE DEUSES

Medicina é Ciência; culinária, não.

As duas são fundamentais para a saúde da vida humana.

Mas… por que uma é ciência e a outra não é?

Seria por causa do dinheiro?

Ou do monopólio assegurado por barganhas políticas?

Seria resultado do corporativismo médico favorecido pelo obscurantismo da pajelança clínica?

Ou da dificuldade de controlar e de proibir que o povo invente e use suas ciências livremente?

Quanto do nosso medo de morrer empodera os médicos (que, historicamente, são os primeiros a morrer)?

Como acreditamos naqueles que não salvam nem a si mesmos?

Ah! Culinária e nutrição são artes.

Medicina seria a arte de privilegiar uma elite?

Como deixamos de valorizar nossas sabedorias para honrar e cultuar o ‘saber científico’?

Por qual motivo deixamos de ver, analisar e perceber quais são os profissionais que cuidam da saúde e quais os que cultivam as doenças?

Há médicos e médicos… senhores dos medos.

Culinária não é ciência porque muitos sabem colher e preparar o que comem? Nutrição não é ciência porque todos nós sabemos comer?

“Arte = habilidade ou disposição dirigida para a execução de uma finalidade prática ou teórica, realizada de forma consciente, controlada e racional” Filosofia – Platão

ALEGRIAS HUMANAS

ALEGRIAS HUMANAS

Vida dura,
pagar as contas,
criar os filhos,
dois empregos,
voltar pra casa,
lavar a roupa,
cozinhar marmita,
dormir exaustos.

Melhores salários,
casa nova,
menos trabalho,
tempo pra TV,
descontração,
‘esquecer da Vida’,
alienação.

Acordar:
ligar a TV,
chegar pro almoço:
ligar a TV,
voltar do trabalho:
ligar a TV,

desligar da Vida.

Que tragédia!!!
TV quebrada,
sem diversão,
sem novela,
sem religião,
sem notícias…

Contar pro vizinho
desgraça da família:
TV não liga,
aparelho de plasma,
um dinheirão…
que não funciona.

Vizinho ocupado,
vendo na TV:
futebol manipulado,
corrupção política,
estupro eclesiástico,
propaganda enganosa.

Entrar no carro,
sair à toa,
ver paisagens,
(re)conhecer o mundo,
admirar a árvore,
assustar passarinho,
saudar pessoas…

Choque de realidade:
gente falante,
notícias humanas,
crianças correndo,

alegrias humanas.

Alegria humanas???

NONAGENÁRIO DE ANNA MARIA

Anna Maria vai desbravando calendários.

Até parece que o Antônio Houaiss antevia as bravuras da heroína quando listou os significados do verbete desbravar: “fazer perder a braveza; amansar; tornar culto, civilizado; polir; livrar (lugar de passagem) de obstruções; abrir, desimpedir, limpar; explorar (lugares desconhecidos); vencer (desafios, obstáculos etc.); pôr (terreno) em condições de ser cultivado; arrotear, lavrar”.

Seguindo o filão indicado pelo dicionarista, encontramos acepções para arrotear: “desmoitar, desbravar (terreno) para plantação; cultivar pela primeira vez; lavrar para o primeiro cultivo; dar educação a; instruir, civilizar”.

Características de Anna Maria, em menor ou maior grau.

Foi gerada e gestada na primavera de 1925, sem protagonismo inicial. Porém, nos primeiros meses de 1926, assumiu o comando do apartamento uterino.

Fugiu do ventre no dia 11 agosto de 1926. Corpo e mente cresceram nas selvas oestinas do Sul do Brasil. Queria ser professora, porém, o pai a protegeu do ‘perigo de cair na vida’. Pela tradição, deveria casar, cuidar da casa e da família, como uma ‘rainha do lar’. Para ‘cumprir a sina’, foi oferecida em casamento contra o filho de outro madeireiro, mas rejeitou a chance de enriquecer.

Aos 23 anos, às vésperas de ser nomeada ‘solteirona’, casou com um vizinho analfabeto e pobre, sem olhos azuis e, muito menos, fortuna. No entanto, tinha vontade de trabalhar, derrubou uns pinheiros, falquejou tábuas, casa, mesa, bancos, armários e cama. Anna Maria emendou panos, preparou alimentos e gerou filhos a cada 2 anos.

Até o dia 8 de março de 1962, quando foi enviuvada aos 35 anos de idade. Estava ‘grávida de 15 dias’, pois a caçula foi parida em 19 de novembro de 1962.

Recebeu oferta de casamento, podendo acrescentar mais 8 enteados aos 6 filhos dela, com a certeza de mais algumas crias naquele segundo casamento. Porém, analisando, com as crianças, as perspectivas de ‘muito barulho’ nos ‘4 dias que restavam de vida’, deixou o viúvo casar com ‘a outra’. Se bem que, depois de repetir, por 2 décadas, essa cantilena (Só tenho 4 dias de vida e ainda tenho de passar por tudo isso!), está completando 90 anos de batismo e de registro civil.

Para diferenciar da mãe Anna, foi Maria; quando os filhos superaram a altura dela, passou a Marieta; mudando de região, conseguiu ser Anna Maria; ao gastar ainda mais o tamanho, se contentou com Anninha; ao nascerem os netos, se autodenominou .

Anna Maria tem orgulho de ter dado estudo para os 6 filhos; todos ‘formados’ e ‘bem de vida’. Viveu muito… mas … considera pouco. Assim, insatisfeita, destemida e obstinada, caminha para a fronteira do centenário, em 2026.

Anotações de sintaxe para uso pessoal.

SINAIS SINTÁTICOS

Anotações do Mario Tessari.

Os especialistas em gramática assumem papel de ‘policiais’, com direito e obrigação de disciplinar as escritas na Língua oficial. Para sorte dos usuários da Língua Portuguesa, falta tempo para que eles disciplinem também a prosódia, a ortoépia e a ortofonia.

Os gramáticos, na sua maioria, categorizam todos os sinais impressos como ‘ortográficos’. [A ortografia disciplina a grafia correta das palavras, conforme um conjunto de regras estabelecidas pela gramática normativa. O hífen, os sinais diacríticos (cedilha e acentos) e os pontos colocados sobre as letras ‘i’ e ‘j’ são sinais gráficos usados para indicar valores fonéticos específicos para determinadas letras.]

No entanto, os sinais ‘de pontuação’ (vírgula, ponto, dois-pontos, ponto-e-vírgula, reticências, parênteses, travessão e aspas), criados para facilitar a leitura e o entendimento das ideias, são ferramentas da Análise Sintática, estudo das funções das palavras e das orações em uma frase.

A Ortografia estabelece regras ‘oficiais’ de como as palavras devem ser escritas, diferenciando ‘escritas populares’ de ‘escritas eruditas’.

Os professores de gramática são formados pelas academias científicas com a responsabilidade de professar a ‘pureza gramatical’ e as academias literárias escolhem seus membros dentre os que obedecem a padrões científicos, como a ortografia e o formato dos textos (prosa, poema, conto, novela, romance).

A ciência linguística analisa a funcionalidade da linguagem falada e/ou escrita, a evolução e a diversificação dos sistemas de representação do pensamento humano.

A PRÁTICA LITERÁRIA

Posso usar dois-pontos (:), ponto-e-vírgula (;) ou ponto e vírgula (. e ,). Mais provavelmente, usarei vírgula e ponto (, e .), nessa sequência. Nas frases, uso vírgula para separar ideias que complementam a oração principal, ponto-e-vírgula para incluir ideias divergentes ou paralelas, ponto para indicar que completei o enunciado e ponto-final para encerrar o assunto.

Ao afirmar que o ponto-e-vírgula (;) é “sinal de pontuação que indica pausa mais forte que a da vírgula e menos que a do ponto”, o dicionarista obrigaria o gago a colocar ponto-e-vírgula a cada ‘pausa gaguejada’, além de uma procissão de vírgulas, para as pausas ‘menos fortes’. O especialista deixa outra complicação: mensurar as pausas “mais forte que a da vírgula e menos que a do ponto”. Imagino que as pausas possam ser breves ou longas. Como seriam as pausas fracas ou fortes?

Mais preocupantes ainda são as afirmações que a vírgula é uma “ligeira pausa para respirar”. Provavelmente, esse autor seja um biólogo preocupado com nossa fisiologia respiratória.

O USO DA VÍRGULA ANTES DO PRONOME RELATIVO ‘QUE’

  1. Os senadores que foram eleitos no último dia 15 tomarão posse no dia …
  2. É difícil encontrar os gatos que fogem de casa durante a noite.
  3. O povo cobra dos senadores, que foram eleitos democraticamente, a responsabilidade…
  4. Os gatos, que são venerados desde o tempo dos faraós, preferem viver livres, sem coleiras.

Nas duas primeiras frases, o pronome ‘que’ indica a delimitação dos sujeitos, através de oração subordinada restritiva, com função de adjunto adnominal da palavra antecedente, indispensável para expressar o sentido pretendido. Sem vírgula.

1a – Apenas os senadores que foram eleitos no último dia 15 tomarão posse no dia …

2a – É difícil encontrar apenas os gatos que fogem de casa durante a noite.

Nas duas últimas, o pronome relativo ‘que’ é usado para iniciar uma explicação (oração subordinada adjetiva explicativa); oração opcional que acrescenta uma informação complementar, que pode ser retirada sem prejuízo de entendimento; escrita ‘entre vírgulas’.

3a – O povo cobra dos senadores [, os quais foram eleitos democraticamente,] a responsabilidade…

3b – O povo cobra dos senadores a responsabilidade…

4a – Os gatos [, os quais são venerados desde o tempo dos faraós,] preferem viver livres, sem coleiras.

4b – Os gatos preferem viver livres, sem coleiras.

EXEMPLOS DE USO DE HÍFEN

O uso do hífen depende da interpretação: abelha-sem-ferrão é palavra composta (substantivo) que nomeia abelhas com uma característica específica: uma espécie de abelha. E abelha sem ferrão é locução substantiva usada no caso do animal ter perdido a ‘arma’.

Se for nome da espécie, deve ser escrito ‘uruçu-amarela’. Se determinada espécie de uruçu tiver indivíduos uns pretos e outros amarelos, haverá abelhas uruçu pretas e abelhas uruçu amarelas. Mirim-guaçu preta e mirim-guaçu amarela; manduri preta e manduri amarela; porque as espécies são denominadas mirim-guaçu e manduri, respectivamente.

É questionável que os meliponíneos não possuam ferrões; mas, com certeza, não ferroam. Logo, a locução deveria ser: abelha que não ferroa. Abelha-sem-ferrão ou abelha-da-terra = espécie de abelhas dos gêneros melípona, trigona, … Uma abelha do gênero Apis que deixou o ferrão em alguém será uma abelha sem ferrão. Se os chifres de um boi forem decepados, teremos um boi sem chifres. Os que já nascem mochos serão bois-sem-chifres.

Copo-de-leite nomeia uma flor e ‘copo de leite’ é uma porção de leite que pode estar num copo ou em outra vasilha; a expressão se refere à quantidade do alimento. Ponto-e-vírgula nomeia um sinal de pontuação; ponto e vírgula são dois sinais de pontuação; Boca-de-leão é uma flor; boca de leão é a abertura inicial do tubo digestivo do ‘rei dos animais’.

Mesmo depois da última Reforma Ortográfica, as palavras compostas que designam espécies animais ou vegetais continuarão sendo grafadas com hífen: bem-te-vi, copo-de-leite, boca-de-renda, porco-bravo, porco-do-mato, aroeira-folha-de-salso, uruçu-boi, formiga-açucareira, formiga-cabeça-de-vidro, …

RETICÊNCIAS

As reticências, além das funções técnico-linguísticas, podem ser usadas como recurso estilístico. Vai depender se as reticências são dúvidas da palavra… ou indecisões das ideias …

No caso, estou indicando indeterminação, hesitação, dissimulação, dúvida da palavra… ou a omissão de algo que deixo de escrever para que o leitor continue … a frase por conta dele. Também uso reticências para indicar uma ‘pausa emocional’ (aposiopese) ou uma insinuação.

Em Suçurê, aparecem reticências em:

“— Vejo que a aliança ainda está no dedo… Logo … para o povo daqui,  a situação continua na mesma: só mistério.”

“— Mesmo assim, o Icobé vai ficar sozinho e não sabe lidar com o gado; a gente vai deixar tudo organizado, pra ele apenas atender alguma eventualidade. Por falar nisso, seria bom se você, Icobé, pudesse dar seu passeio de reconhecimento agora pela manhã porque sismo de saber que você saia por aí sozinho… Pode lhe acontecer algo e … – opinou Genuíno.

— Boa ideia! Vou encilhar o Zaino e dar uma volta pela invernada. Mas não demoro… – concordou Icobé.”

“— Tem que ver… – ponderou o capataz. Eu devo me afastar por uns dias… O João não pode ficar solito por muito tempo…

— Si desse … fais tempo qui num falo c´a mana Maria Rosa… – choramingou o Silvino.”

“— Não sou eu que procuro antes de ser chamado. São eles que me perturbam com vozes estranhas…

— Estranhas, porém bem audíveis, claras, pois indicam quem é e o local exato em que estão …”

SEO OU SEU

A palavra ‘seu’ é pronome possessivo.

Eu uso ‘seo’ para traduzir a pronúncia caipira de ‘senhor’. A fala coloquial abrevia as palavras, ‘comendo letras’, economizando tempo e voz, através de síncopes, pronunciando apenas as ‘essências’ da palavra. Maior / mor, senhor / seo, está / tá, estive / tive, …

ETCÉTERA

Et cetera, do Latim = e outras coisas, e assim por diante, …

A abreviatura (etc.) já vem precedida do conetivo ‘e’ (et). Logo, não uso vírgula antes de ‘etc.’ Aliás, uso reticências ao invés de usar etcétera. Deixo o ‘et cetera’ para os romanos. Sou de época mais recente.

Mario Tessari