ALEGRIAS HUMANAS

ALEGRIAS HUMANAS

Vida dura,
pagar as contas,
criar os filhos,
dois empregos,
voltar pra casa,
lavar a roupa,
cozinhar marmita,
dormir exaustos.

Melhores salários,
casa nova,
menos trabalho,
tempo pra TV,
descontração,
‘esquecer da Vida’,
alienação.

Acordar:
ligar a TV,
chegar pro almoço:
ligar a TV,
voltar do trabalho:
ligar a TV,

desligar da Vida.

Que tragédia!!!
TV quebrada,
sem diversão,
sem novela,
sem religião,
sem notícias…

Contar pro vizinho
desgraça da família:
TV não liga,
aparelho de plasma,
um dinheirão…
que não funciona.

Vizinho ocupado,
vendo na TV:
futebol manipulado,
corrupção política,
estupro eclesiástico,
propaganda enganosa.

Entrar no carro,
sair à toa,
ver paisagens,
(re)conhecer o mundo,
admirar a árvore,
assustar passarinho,
saudar pessoas…

Choque de realidade:
gente falante,
notícias humanas,
crianças correndo,

alegrias humanas.

Alegria humanas???

NONAGENÁRIO DE ANNA MARIA

Anna Maria vai desbravando calendários.

Até parece que o Antônio Houaiss antevia as bravuras da heroína quando listou os significados do verbete desbravar: “fazer perder a braveza; amansar; tornar culto, civilizado; polir; livrar (lugar de passagem) de obstruções; abrir, desimpedir, limpar; explorar (lugares desconhecidos); vencer (desafios, obstáculos etc.); pôr (terreno) em condições de ser cultivado; arrotear, lavrar”.

Seguindo o filão indicado pelo dicionarista, encontramos acepções para arrotear: “desmoitar, desbravar (terreno) para plantação; cultivar pela primeira vez; lavrar para o primeiro cultivo; dar educação a; instruir, civilizar”.

Características de Anna Maria, em menor ou maior grau.

Foi gerada e gestada na primavera de 1925, sem protagonismo inicial. Porém, nos primeiros meses de 1926, assumiu o comando do apartamento uterino.

Fugiu do ventre no dia 11 agosto de 1926. Corpo e mente cresceram nas selvas oestinas do Sul do Brasil. Queria ser professora, porém, o pai a protegeu do ‘perigo de cair na vida’. Pela tradição, deveria casar, cuidar da casa e da família, como uma ‘rainha do lar’. Para ‘cumprir a sina’, foi oferecida em casamento contra o filho de outro madeireiro, mas rejeitou a chance de enriquecer.

Aos 23 anos, às vésperas de ser nomeada ‘solteirona’, casou com um vizinho analfabeto e pobre, sem olhos azuis e, muito menos, fortuna. No entanto, tinha vontade de trabalhar, derrubou uns pinheiros, falquejou tábuas, casa, mesa, bancos, armários e cama. Anna Maria emendou panos, preparou alimentos e gerou filhos a cada 2 anos.

Até o dia 8 de março de 1962, quando foi enviuvada aos 35 anos de idade. Estava ‘grávida de 15 dias’, pois a caçula foi parida em 19 de novembro de 1962.

Recebeu oferta de casamento, podendo acrescentar mais 8 enteados aos 6 filhos dela, com a certeza de mais algumas crias naquele segundo casamento. Porém, analisando, com as crianças, as perspectivas de ‘muito barulho’ nos ‘4 dias que restavam de vida’, deixou o viúvo casar com ‘a outra’. Se bem que, depois de repetir, por 2 décadas, essa cantilena (Só tenho 4 dias de vida e ainda tenho de passar por tudo isso!), está completando 90 anos de batismo e de registro civil.

Para diferenciar da mãe Anna, foi Maria; quando os filhos superaram a altura dela, passou a Marieta; mudando de região, conseguiu ser Anna Maria; ao gastar ainda mais o tamanho, se contentou com Anninha; ao nascerem os netos, se autodenominou .

Anna Maria tem orgulho de ter dado estudo para os 6 filhos; todos ‘formados’ e ‘bem de vida’. Viveu muito… mas … considera pouco. Assim, insatisfeita, destemida e obstinada, caminha para a fronteira do centenário, em 2026.

Anotações de sintaxe para uso pessoal.

SINAIS SINTÁTICOS

Anotações do Mario Tessari.

Os especialistas em gramática assumem papel de ‘policiais’, com direito e obrigação de disciplinar as escritas na Língua oficial. Para sorte dos usuários da Língua Portuguesa, falta tempo para que eles disciplinem também a prosódia, a ortoépia e a ortofonia.

Os gramáticos, na sua maioria, categorizam todos os sinais impressos como ‘ortográficos’. [A ortografia disciplina a grafia correta das palavras, conforme um conjunto de regras estabelecidas pela gramática normativa. O hífen, os sinais diacríticos (cedilha e acentos) e os pontos colocados sobre as letras ‘i’ e ‘j’ são sinais gráficos usados para indicar valores fonéticos específicos para determinadas letras.]

No entanto, os sinais ‘de pontuação’ (vírgula, ponto, dois-pontos, ponto-e-vírgula, reticências, parênteses, travessão e aspas), criados para facilitar a leitura e o entendimento das ideias, são ferramentas da Análise Sintática, estudo das funções das palavras e das orações em uma frase.

A Ortografia estabelece regras ‘oficiais’ de como as palavras devem ser escritas, diferenciando ‘escritas populares’ de ‘escritas eruditas’.

Os professores de gramática são formados pelas academias científicas com a responsabilidade de professar a ‘pureza gramatical’ e as academias literárias escolhem seus membros dentre os que obedecem a padrões científicos, como a ortografia e o formato dos textos (prosa, poema, conto, novela, romance).

A ciência linguística analisa a funcionalidade da linguagem falada e/ou escrita, a evolução e a diversificação dos sistemas de representação do pensamento humano.

A PRÁTICA LITERÁRIA

Posso usar dois-pontos (:), ponto-e-vírgula (;) ou ponto e vírgula (. e ,). Mais provavelmente, usarei vírgula e ponto (, e .), nessa sequência. Nas frases, uso vírgula para separar ideias que complementam a oração principal, ponto-e-vírgula para incluir ideias divergentes ou paralelas, ponto para indicar que completei o enunciado e ponto-final para encerrar o assunto.

Ao afirmar que o ponto-e-vírgula (;) é “sinal de pontuação que indica pausa mais forte que a da vírgula e menos que a do ponto”, o dicionarista obrigaria o gago a colocar ponto-e-vírgula a cada ‘pausa gaguejada’, além de uma procissão de vírgulas, para as pausas ‘menos fortes’. O especialista deixa outra complicação: mensurar as pausas “mais forte que a da vírgula e menos que a do ponto”. Imagino que as pausas possam ser breves ou longas. Como seriam as pausas fracas ou fortes?

Mais preocupantes ainda são as afirmações que a vírgula é uma “ligeira pausa para respirar”. Provavelmente, esse autor seja um biólogo preocupado com nossa fisiologia respiratória.

O USO DA VÍRGULA ANTES DO PRONOME RELATIVO ‘QUE’

  1. Os senadores que foram eleitos no último dia 15 tomarão posse no dia …
  2. É difícil encontrar os gatos que fogem de casa durante a noite.
  3. O povo cobra dos senadores, que foram eleitos democraticamente, a responsabilidade…
  4. Os gatos, que são venerados desde o tempo dos faraós, preferem viver livres, sem coleiras.

Nas duas primeiras frases, o pronome ‘que’ indica a delimitação dos sujeitos, através de oração subordinada restritiva, com função de adjunto adnominal da palavra antecedente, indispensável para expressar o sentido pretendido. Sem vírgula.

1a – Apenas os senadores que foram eleitos no último dia 15 tomarão posse no dia …

2a – É difícil encontrar apenas os gatos que fogem de casa durante a noite.

Nas duas últimas, o pronome relativo ‘que’ é usado para iniciar uma explicação (oração subordinada adjetiva explicativa); oração opcional que acrescenta uma informação complementar, que pode ser retirada sem prejuízo de entendimento; escrita ‘entre vírgulas’.

3a – O povo cobra dos senadores [, os quais foram eleitos democraticamente,] a responsabilidade…

3b – O povo cobra dos senadores a responsabilidade…

4a – Os gatos [, os quais são venerados desde o tempo dos faraós,] preferem viver livres, sem coleiras.

4b – Os gatos preferem viver livres, sem coleiras.

EXEMPLOS DE USO DE HÍFEN

O uso do hífen depende da interpretação: abelha-sem-ferrão é palavra composta (substantivo) que nomeia abelhas com uma característica específica: uma espécie de abelha. E abelha sem ferrão é locução substantiva usada no caso do animal ter perdido a ‘arma’.

Se for nome da espécie, deve ser escrito ‘uruçu-amarela’. Se determinada espécie de uruçu tiver indivíduos uns pretos e outros amarelos, haverá abelhas uruçu pretas e abelhas uruçu amarelas. Mirim-guaçu preta e mirim-guaçu amarela; manduri preta e manduri amarela; porque as espécies são denominadas mirim-guaçu e manduri, respectivamente.

É questionável que os meliponíneos não possuam ferrões; mas, com certeza, não ferroam. Logo, a locução deveria ser: abelha que não ferroa. Abelha-sem-ferrão ou abelha-da-terra = espécie de abelhas dos gêneros melípona, trigona, … Uma abelha do gênero Apis que deixou o ferrão em alguém será uma abelha sem ferrão. Se os chifres de um boi forem decepados, teremos um boi sem chifres. Os que já nascem mochos serão bois-sem-chifres.

Copo-de-leite nomeia uma flor e ‘copo de leite’ é uma porção de leite que pode estar num copo ou em outra vasilha; a expressão se refere à quantidade do alimento. Ponto-e-vírgula nomeia um sinal de pontuação; ponto e vírgula são dois sinais de pontuação; Boca-de-leão é uma flor; boca de leão é a abertura inicial do tubo digestivo do ‘rei dos animais’.

Mesmo depois da última Reforma Ortográfica, as palavras compostas que designam espécies animais ou vegetais continuarão sendo grafadas com hífen: bem-te-vi, copo-de-leite, boca-de-renda, porco-bravo, porco-do-mato, aroeira-folha-de-salso, uruçu-boi, formiga-açucareira, formiga-cabeça-de-vidro, …

RETICÊNCIAS

As reticências, além das funções técnico-linguísticas, podem ser usadas como recurso estilístico. Vai depender se as reticências são dúvidas da palavra… ou indecisões das ideias …

No caso, estou indicando indeterminação, hesitação, dissimulação, dúvida da palavra… ou a omissão de algo que deixo de escrever para que o leitor continue … a frase por conta dele. Também uso reticências para indicar uma ‘pausa emocional’ (aposiopese) ou uma insinuação.

Em Suçurê, aparecem reticências em:

“— Vejo que a aliança ainda está no dedo… Logo … para o povo daqui,  a situação continua na mesma: só mistério.”

“— Mesmo assim, o Icobé vai ficar sozinho e não sabe lidar com o gado; a gente vai deixar tudo organizado, pra ele apenas atender alguma eventualidade. Por falar nisso, seria bom se você, Icobé, pudesse dar seu passeio de reconhecimento agora pela manhã porque sismo de saber que você saia por aí sozinho… Pode lhe acontecer algo e … – opinou Genuíno.

— Boa ideia! Vou encilhar o Zaino e dar uma volta pela invernada. Mas não demoro… – concordou Icobé.”

“— Tem que ver… – ponderou o capataz. Eu devo me afastar por uns dias… O João não pode ficar solito por muito tempo…

— Si desse … fais tempo qui num falo c´a mana Maria Rosa… – choramingou o Silvino.”

“— Não sou eu que procuro antes de ser chamado. São eles que me perturbam com vozes estranhas…

— Estranhas, porém bem audíveis, claras, pois indicam quem é e o local exato em que estão …”

SEO OU SEU

A palavra ‘seu’ é pronome possessivo.

Eu uso ‘seo’ para traduzir a pronúncia caipira de ‘senhor’. A fala coloquial abrevia as palavras, ‘comendo letras’, economizando tempo e voz, através de síncopes, pronunciando apenas as ‘essências’ da palavra. Maior / mor, senhor / seo, está / tá, estive / tive, …

ETCÉTERA

Et cetera, do Latim = e outras coisas, e assim por diante, …

A abreviatura (etc.) já vem precedida do conetivo ‘e’ (et). Logo, não uso vírgula antes de ‘etc.’ Aliás, uso reticências ao invés de usar etcétera. Deixo o ‘et cetera’ para os romanos. Sou de época mais recente.

Mario Tessari

Em memória de Júlio Dias de Queiroz.

Bom ler seus escritos. Sempre aprendo e ficam aspirações de desvendar como faz para criar relatos que nos fazem sempre querer chegar ao parágrafo seguinte.

Viver. Morrer. Você divaga e navega nestas correntes difíceis de aceitar ou concordar com tantas indagações, sempre sem respostas convincentes. Mas, na verdade, até me convenceu de que nascemos tantas vezes que, talvez, até possamos continuar vivendo…

Basta ser um bom escritor … talvez, um bom filho … ou (quem sabe?) um bom amigo como o seu velho mestre que faleceu aos mais de noventa anos. Foi seu amigo, seu mestre e seu leitor.

Você teve a humildade e a gentileza filial de reconhecer o saldo positivo das cartas trocadas. Sugestões singelas que o inspiravam a pensar no futuro e no que passou e (o pior) nas duas implacáveis certezas: a existência do nascer e do morrer. Por tantas vezes e por tantas causas.

E, quanto mais vivemos, amigo Mario Tessari, mais fingimos não acreditar no fim.

É alta madrugada. Vamos ao descanso.

Fraterno Abraço

Pedro Paulo Pamplona Vieira Peixoto

A VIDA DE JÚLIO DE QUEIROZ

Nascer e morrer são conceitos subjetivos.

Quando nasceu Júlio Dias de Queiroz? No momento em que saiu do ventre da mãe? Ou a vida biológica começou bem antes, no dia da concepção?

Objetivamente, podemos datar os ritos de passagem: para a família, nasceu no dia do parto; para a Nação, no dia do registro civil; para a Igreja, no dia do batismo; para a Academia Catarinense de Letras, no dia da entronação na cadeira 10.

Para a mente do Júlio, a vida psicológica se efetiva a partir das memórias mais antigas; talvez, lá pelos quatro anos civis. Para mim, Júlio Dias de Queiroz nasceu na véspera de Natal de 1981, quando recebi a carta dele, escrita cinco dias antes. Foi aí que ele passou a existir pra mim. O mestre tinha encontrado três poemas de minha autoria no Varal Literário da Praça XV, que impressionaram “pela intensidade e pela precisão de linguagem”. Por se sentir identificado comigo, propôs “conversar sobre a poesia, sobre o mundo e sobre a gente.

Durante 34 anos, trocamos cartas e mensagens. E recebi alguns bons puxões de orelha: “Estou fora do linguajar moderno, mas não empregaria “usufruir” para dizer “fruir” ou “gozar”. […] Você é bom demais para cair (três vezes) no linguajar dos ‘cocôs’.

No dia 24 de janeiro de 2016, o Júlio manifestou seu estado de espírito: “Mario, do pouco do que tenho – e não estou sendo falsamente modesto – tenho a obrigação de dividi-lo antes da partida para a outra dimensão do existir, que está muito próxima.

Agora, ouvi dizer que ele morreu… Deve ser mais uma das brincadeiras dele, pois, ultimamente, ele vivia dialogando ludicamente com a morte; se tornaram amigos, se entendiam perfeitamente. Talvez, tenham combinado dar uma volta, fazer um passeio ou mesmo uma viagem mais longa.

Depois que ele comemorou o aniversário de noventa anos, foi aos poucos se retraindo, ficando lacônico, trocando nossas conversas por silêncios misteriosos. Talvez, estivesse realizando um dos últimos desejos: “viver o meu morrer”.

Ficaram alguns assuntos pendentes… Ele cobrava meus romances e eu ia mostrar pra ele os rascunhos de Suçurê; o outro está apenas concebido e inicia a gestação… Também ele, nunca me mostrou o livro que estava escrevendo depois dos noventa… Espero que tenha deixado os manuscritos com a Salma ou com o Celestino…

Levando em conta os silêncios dele – ultimamente –, pra mim vai fazer pouca diferença, pois posso conversar com os livros que ele escreveu, ler a lista de obras indicadas por ele e escrever sempre mais e melhor.

Vai ser bastante difícil o Júlio Dias de Queiroz morrer dentro de mim; ele será eterno…

E pra você? Você acredita no que estão dizendo por aí: que ele morreu? Ou dará vida e continuidade às brilhantes ideias dele?

O DIREITO DE TRABALHAR

A legislação distorceu

os direitos das crianças,

criando aberrações.

Impedir a criança de trabalhar

é uma restrição que impede

a aprendizagem das práticas vitais,

como pensar e manusear.

Crime é obrigar a trabalhar

ou explorar o trabalho infantil;

criminosos são os vadios

que exploram as crianças.

Convidar e incentivar um filho

a participar coletivamente

dos trabalhos da família

é uma atitude educativa.

Trabalhar e a opção de não trabalhar

são direitos naturais dos seres humanos;

tolher direitos naturais é violência política.

Haverá um tempo em que

a proibição do trabalho infantil

será vista como uma estupidez

motivada por interesses escusos.

Haverá um tempo em que crianças,

jovens, adultos e anciões

exercerão o direito de trabalhar,

quando, quanto e como quiserem;

trabalhar segundo suas necessidades

e enquanto sentirem prazer de trabalhar.