A OVELHA QUE MORDEU O CACHORRO

A OVELHA QUE MORDEU O CACHORRO

A Fófi nasceu ovelha em um ambiente humano. Órfão no parto, foi levada para um sítio em que viviam bois, vacas, galinhas, cachorros e humanos. Dentre essas categorias, coube a ela conviver com os cachorros, com quem foi amarrada e junto dos quais era alimentada, nos mesmos horários e no mesmo local.

Cresceu como cachorro e se identificava com eles, porém nunca brigaram, como é normal cachorros fazerem. Assim, sem dentadas e sem agressões, conviviam como cachorros cordiais, mesmo com a dificuldade de ‘falarem línguas diferentes’: ela balia toda vez que um deles ou todos latiam. Isso, porém, não prejudicou a identificação e a amizade.

À medida que ela ia crescendo, passou a sentir vontade de comer as folhas tenras das plantas do quintal e logo percebeu que os cachorros raramente comiam capim; faziam isso somente quando acometidos de problemas intestinais, como indigestões e ataques de vermes. Aparentemente, os colegas de pátio não condenavam o estranho gosto dela, apenas olhavam para ela com benevolência, considerando que ela fazia isso por ser muito jovem e inexperiente; a ‘mania passaria’ tão logo ela ficasse adulta. E assim foram se acostumando com a extravagância dela e ela ampliava o seu espaço vital, buscando folhas cada vez mais distantes.

Outro aprendizado importante foi acompanhar as pessoas como fazem os cachorros. Assim, saía ao encontro dos ‘familiares’ quando estes retornavam ao lar, deitava aos pés deles durante os períodos em que conversavam com vizinhos e acompanhava as pessoas nos deslocamentos domésticos, na lida com o gado e nos afazeres cotidianos. No entanto, lá dentro dela, vivia um sentimento singular, diferente do dos colegas de pátio, uma mistura de mansidão com saudades do que nunca viveu. Quando ficava inquieta, se achegava a um dos cachorros e, se sentindo ‘aceita’, sossegava.

Como desenvolvia duas personalidades, Fófi foi ficando cada vez mais ‘inteligente’ e aprendia ser ovelha ao mesmo tempo em que aprendia ser cadela: se alimentava e andava como ovelha, mas dormia e defendia a casa como cachorro. Observando o comportamento dos cachorros e a reação dos humanos ao comportamento dos cachorros, aprendeu a ‘avançar em intrusos’, pondo a correr quem entrasse no pátio. Seguia o exemplo dado pelos cachorros e se sentia lisonjeada com a ‘gratidão’ dos ‘donos’, que exaltavam seus feitos com palavras amáveis e doses especiais de ração, incluindo aí alguns ‘agrados’.

Coincidentemente, as crianças – e alguns adultos – sentiam medo real, o que confirmava para a ovelha algum ‘poder agressivo’ e a sua competência para ‘cuidar da casa’. Outro aspecto relevante foi ovelhas terem lã ao redor do corpo; a lã cresce mais que ossos e carnes, dando ao aspecto do animal a impressão de um tamanho ilusório. Ouvia inclusive comentários sobre seu tamanho, como crescia rápido e como era grande e destemida. Por isso, cada vez mais, ‘punha a correr’ todos os elementos que despertavam ódio nos cachorros, como humanos – exceto os da ‘família’ ou os que frequentavam amiúde o sítio – e cachorros ‘estranhos’. Com o devido esclarecimento de que ‘estranho’, nesse caso, era qualquer cachorro invasor do território, podendo ele ser esquisito ou, até mesmo, simpático.

Uma das conquistas de Fófi foi a liberdade de ir e vir, desde que não se afastasse muito da propriedade. A princípio, os colegas cachorros ficaram com um pouco de inveja: presos a suas correntes tinham de suportar os privilégios da colega que, solta, alcançava coisas curiosas, colocadas fora do alcance de suas correntes. As liberdades e a possibilidade de comer a toda hora eram vantagens consideráveis, em relação aos cachorros tradicionais, que permaneciam nas cadeias e eram alimentados em horas incertas.

O que parecia ser motivo de divergência foi interpretado pelos cachorros como uma possibilidade de alcançar os intrusos, pois eles – com seus dentes afiados – estavam presos e Fófi, solta e cheia de vontade de correr, podia – por todos eles – ‘dar uma lição’ aos que ousassem adentrar em seus domínios. Assim, cada vez que eles latiam, ela saia ao encalço dos ‘invasores’, incentivada pelo alarido canino, que aplaudia a coragem e a eficiência da ‘guarda da casa’. Assim, muito vira-lata foi expulso aos atropelos.

Fófi era uma prova viva de que a coragem pode mais que dentes afiados, principalmente quando os outros correm e, impossíveis de alcançar, não podem ser mordidos.

Era. Isto é: foi. Porque, com o passar do tempo, a menina que foi presenteada com ela foi perdendo o interesse; a menina crescia mais que a lã de Fófi. E a sujeira e o mau cheiro também cresciam em Fófi, pois ela deitava nos dejetos caninos e, também, nos dejetos dela. Assim, o pelego ficou imundo e ela foi deportada para um potreiro distante.

Não sendo mais vista, perdeu a importância e os sentimentos ‘familiares’. Passado algum tempo, nem mais era lembrada pelos humanos e passou a ser uma ovelha para os cachorros. Além disso, ela tinha boas carnes e carnes valem dinheiro. Assim, o dono dos cachorros encontrou um interessado nas carnes ovinas; recebeu um dinheiro inesperado e livrou a pastagem de uma boca voraz.

Nota: Fato ocorrido no outro lado da estrada na primeira década do terceiro milênio.

 Em https://livrosdomariotessari.files.wordpress.com/2013/12/cronicontos.pdf, página 98.

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