Anotações de sintaxe para uso pessoal.

SINAIS SINTÁTICOS

Anotações do Mario Tessari.

Os especialistas em gramática assumem papel de ‘policiais’, com direito e obrigação de disciplinar as escritas na Língua oficial. Para sorte dos usuários da Língua Portuguesa, falta tempo para que eles disciplinem também a prosódia, a ortoépia e a ortofonia.

Os gramáticos, na sua maioria, categorizam todos os sinais impressos como ‘ortográficos’. [A ortografia disciplina a grafia correta das palavras, conforme um conjunto de regras estabelecidas pela gramática normativa. O hífen, os sinais diacríticos (cedilha e acentos) e os pontos colocados sobre as letras ‘i’ e ‘j’ são sinais gráficos usados para indicar valores fonéticos específicos para determinadas letras.]

No entanto, os sinais ‘de pontuação’ (vírgula, ponto, dois-pontos, ponto-e-vírgula, reticências, parênteses, travessão e aspas), criados para facilitar a leitura e o entendimento das ideias, são ferramentas da Análise Sintática, estudo das funções das palavras e das orações em uma frase.

A Ortografia estabelece regras ‘oficiais’ de como as palavras devem ser escritas, diferenciando ‘escritas populares’ de ‘escritas eruditas’.

Os professores de gramática são formados pelas academias científicas com a responsabilidade de professar a ‘pureza gramatical’ e as academias literárias escolhem seus membros dentre os que obedecem a padrões científicos, como a ortografia e o formato dos textos (prosa, poema, conto, novela, romance).

A ciência linguística analisa a funcionalidade da linguagem falada e/ou escrita, a evolução e a diversificação dos sistemas de representação do pensamento humano.

A PRÁTICA LITERÁRIA

Posso usar dois-pontos (:), ponto-e-vírgula (;) ou ponto e vírgula (. e ,). Mais provavelmente, usarei vírgula e ponto (, e .), nessa sequência. Nas frases, uso vírgula para separar ideias que complementam a oração principal, ponto-e-vírgula para incluir ideias divergentes ou paralelas, ponto para indicar que completei o enunciado e ponto-final para encerrar o assunto.

Ao afirmar que o ponto-e-vírgula (;) é “sinal de pontuação que indica pausa mais forte que a da vírgula e menos que a do ponto”, o dicionarista obrigaria o gago a colocar ponto-e-vírgula a cada ‘pausa gaguejada’, além de uma procissão de vírgulas, para as pausas ‘menos fortes’. O especialista deixa outra complicação: mensurar as pausas “mais forte que a da vírgula e menos que a do ponto”. Imagino que as pausas possam ser breves ou longas. Como seriam as pausas fracas ou fortes?

Mais preocupantes ainda são as afirmações que a vírgula é uma “ligeira pausa para respirar”. Provavelmente, esse autor seja um biólogo preocupado com nossa fisiologia respiratória.

O USO DA VÍRGULA ANTES DO PRONOME RELATIVO ‘QUE’

  1. Os senadores que foram eleitos no último dia 15 tomarão posse no dia …
  2. É difícil encontrar os gatos que fogem de casa durante a noite.
  3. O povo cobra dos senadores, que foram eleitos democraticamente, a responsabilidade…
  4. Os gatos, que são venerados desde o tempo dos faraós, preferem viver livres, sem coleiras.

Nas duas primeiras frases, o pronome ‘que’ indica a delimitação dos sujeitos, através de oração subordinada restritiva, com função de adjunto adnominal da palavra antecedente, indispensável para expressar o sentido pretendido. Sem vírgula.

1a – Apenas os senadores que foram eleitos no último dia 15 tomarão posse no dia …

2a – É difícil encontrar apenas os gatos que fogem de casa durante a noite.

Nas duas últimas, o pronome relativo ‘que’ é usado para iniciar uma explicação (oração subordinada adjetiva explicativa); oração opcional que acrescenta uma informação complementar, que pode ser retirada sem prejuízo de entendimento; escrita ‘entre vírgulas’.

3a – O povo cobra dos senadores [, os quais foram eleitos democraticamente,] a responsabilidade…

3b – O povo cobra dos senadores a responsabilidade…

4a – Os gatos [, os quais são venerados desde o tempo dos faraós,] preferem viver livres, sem coleiras.

4b – Os gatos preferem viver livres, sem coleiras.

EXEMPLOS DE USO DE HÍFEN

O uso do hífen depende da interpretação: abelha-sem-ferrão é palavra composta (substantivo) que nomeia abelhas com uma característica específica: uma espécie de abelha. E abelha sem ferrão é locução substantiva usada no caso do animal ter perdido a ‘arma’.

Se for nome da espécie, deve ser escrito ‘uruçu-amarela’. Se determinada espécie de uruçu tiver indivíduos uns pretos e outros amarelos, haverá abelhas uruçu pretas e abelhas uruçu amarelas. Mirim-guaçu preta e mirim-guaçu amarela; manduri preta e manduri amarela; porque as espécies são denominadas mirim-guaçu e manduri, respectivamente.

É questionável que os meliponíneos não possuam ferrões; mas, com certeza, não ferroam. Logo, a locução deveria ser: abelha que não ferroa. Abelha-sem-ferrão ou abelha-da-terra = espécie de abelhas dos gêneros melípona, trigona, … Uma abelha do gênero Apis que deixou o ferrão em alguém será uma abelha sem ferrão. Se os chifres de um boi forem decepados, teremos um boi sem chifres. Os que já nascem mochos serão bois-sem-chifres.

Copo-de-leite nomeia uma flor e ‘copo de leite’ é uma porção de leite que pode estar num copo ou em outra vasilha; a expressão se refere à quantidade do alimento. Ponto-e-vírgula nomeia um sinal de pontuação; ponto e vírgula são dois sinais de pontuação; Boca-de-leão é uma flor; boca de leão é a abertura inicial do tubo digestivo do ‘rei dos animais’.

Mesmo depois da última Reforma Ortográfica, as palavras compostas que designam espécies animais ou vegetais continuarão sendo grafadas com hífen: bem-te-vi, copo-de-leite, boca-de-renda, porco-bravo, porco-do-mato, aroeira-folha-de-salso, uruçu-boi, formiga-açucareira, formiga-cabeça-de-vidro, …

RETICÊNCIAS

As reticências, além das funções técnico-linguísticas, podem ser usadas como recurso estilístico. Vai depender se as reticências são dúvidas da palavra… ou indecisões das ideias …

No caso, estou indicando indeterminação, hesitação, dissimulação, dúvida da palavra… ou a omissão de algo que deixo de escrever para que o leitor continue … a frase por conta dele. Também uso reticências para indicar uma ‘pausa emocional’ (aposiopese) ou uma insinuação.

Em Suçurê, aparecem reticências em:

“— Vejo que a aliança ainda está no dedo… Logo … para o povo daqui,  a situação continua na mesma: só mistério.”

“— Mesmo assim, o Icobé vai ficar sozinho e não sabe lidar com o gado; a gente vai deixar tudo organizado, pra ele apenas atender alguma eventualidade. Por falar nisso, seria bom se você, Icobé, pudesse dar seu passeio de reconhecimento agora pela manhã porque sismo de saber que você saia por aí sozinho… Pode lhe acontecer algo e … – opinou Genuíno.

— Boa ideia! Vou encilhar o Zaino e dar uma volta pela invernada. Mas não demoro… – concordou Icobé.”

“— Tem que ver… – ponderou o capataz. Eu devo me afastar por uns dias… O João não pode ficar solito por muito tempo…

— Si desse … fais tempo qui num falo c´a mana Maria Rosa… – choramingou o Silvino.”

“— Não sou eu que procuro antes de ser chamado. São eles que me perturbam com vozes estranhas…

— Estranhas, porém bem audíveis, claras, pois indicam quem é e o local exato em que estão …”

SEO OU SEU

A palavra ‘seu’ é pronome possessivo.

Eu uso ‘seo’ para traduzir a pronúncia caipira de ‘senhor’. A fala coloquial abrevia as palavras, ‘comendo letras’, economizando tempo e voz, através de síncopes, pronunciando apenas as ‘essências’ da palavra. Maior / mor, senhor / seo, está / tá, estive / tive, …

ETCÉTERA

Et cetera, do Latim = e outras coisas, e assim por diante, …

A abreviatura (etc.) já vem precedida do conetivo ‘e’ (et). Logo, não uso vírgula antes de ‘etc.’ Aliás, uso reticências ao invés de usar etcétera. Deixo o ‘et cetera’ para os romanos. Sou de época mais recente.

Mario Tessari

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4 comentários sobre “Anotações de sintaxe para uso pessoal.

  1. Então.
    Agradeço por levantares esta lebre que raramente me ocorre; sou fraco em gramática e tenho uma vulgaríssima preguiça de me dedicar a ela. Alguns comentários ou apontamentos:
    a. Sobrou um colchete no final do segundo parágrafo;
    b. Creio que era “cismo” no trecho “Por falar nisso, seria bom se você, Icobé, pudesse dar seu passeio de reconhecimento agora pela manhã porque sismo de saber que você saia por aí sozinho”, não?
    c. Tenho alguma restrição pessoal ao uso de aspas simples. É uma ferramenta cuja amplidão me faz pensar que seu uso intenso pode fazer a compreensão do texto antes se perder do que ser reforçada. Penso que o uso mais comum das aspas simples signifique que o autor está sendo irônico, mas acho que tu usas mais com a intenção de demonstrar estar utilizando um vocábulo fora de sua aplicação mais popular. Bom, resulta que o uso das aspas simples é um recurso de estilo e não uma regra estanque. Ou estarei viajando?
    d. Ainda no campo das aspas, mas agora as duplas, em se tratando de citação, não seria interessante apontar o citado e a obra de referência? Este diálogo entre diferentes obras, facilitado o caminho, pode ser muito rico.
    Abraço!

    • Bom trocar ideias com outro escritor.
      Analisando:
      a. Um dos critérios que uso para avaliar a qualidade do texto/parágrafo é a percepção dos leitores-colaboradores. E, nesse caso, fica claro que não ficou claro. Ou seja: faltou clareza. Passerei a grafar em itálico os trechos isolados entre parênteses, entre colchetes ou entre travessões. Essa estratégia – talvez – deixe realmente claro que o trecho é uma inserção.
      O trecho entre colchetes apontado é longo; abrange quase todo o parágrafo. Abre antes de [A ortografia … e fecha ao final … letras.]. No caso, usei para indicar que o fragmento isolado por colchetes é uma explicação para justificar o parágrafo seguinte.
      b. De fato, causei um abalo sísmico por troca de letras. Eu tinha consciência dos termos homônimos, mas devo ter vacilado. Ou fui traído pelo Word, pois, se faltar alguma letra na digitação, o aplicativo completa, automaticamente. Nos meus textos encontro algumas ‘ajudas indesejadas’. Porém, textos literários merecem muitas revisões e por olhares diferentes.
      Quando apresentei os originais de RODA DE CHIMARRÃO para o Enéas, ele teve a tristeza de encontrar uma troca semelhante, já na primeira linha do livro: ”Vai te achegando e toma acento que a água já chia.” Envergonhado, logo verti para: “Vai te achegando e toma assento que a água já chia.”
      c. O “aspas simples” seria o apóstrofo? Que uso em paráfrases ou para marcar palavras com sentido aproximado, em dialeto ou em linguagem coloquial. E em elisões, como gota d’água Sant’ana ou fio d’óleo.
      d. Me parece que a citação do autor cabe mais para textos acadêmicos, científicos. No caso de contos e de romances, penso que o destaque informa que o autor está usando ideia ou trecho de outrem. Mesmo que não seja escrito com as mesmas letras.
      Entretanto, sou rebelde e idiossincrático. Privilegio a escritura de ideias excêntricas, com pretensa originalidade estilística. Risos.

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