CISCO NA PLATEIA

Pedro participava das atividades da Associação consciente de que poderia evoluir e contribuir para as melhorias educacionais.

Além das reuniões mensais para estudo de alternativas didáticas a serem testadas nas práticas pedagógicas, uma vez por ano, acontecia o grande evento, para os quais eram convidados palestrantes titulados de renome nacional, com trabalhos publicados sobre novas teorias de ensino-aprendizagem.

Para o IX Seminário de Ideias Inovadoras, foi convidado um professor catedrático da mais afamada universidade do País, pós-doutor em instituição norte-americana e autor de um trabalho científico com o sugestivo título: OS DETALHES PODEM MUDAR A EDUCAÇÃO.

Porém, o preço da palestra abarcava valores acima de qualquer detalhe. Por isso, os associados buscaram patrocínios e desembolsaram parte de suas economias para poder contar com informações que poderiam mudar as perspectivas salariais deles.

Como pessoa importante, o intelectual exigiu tratamento principesco e impôs condições adicionais: o espaço reservado ao público deveria estar completamente tomado e todos deveriam ouvir a exposição erudita no mais completo silêncio.

Depois de lida a extensa lista de títulos e de qualidades do palestrante, ele iniciou a explanação do tema contratado: INFLUÊNCIAS DO PROFESSOR NAS DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM DO ALUNO. Imaginava-se que ele fosse revelar soluções para os desafios escolares daquela época.

No entanto, o pós-doutor divagou sobre as ideias brilhantes desenvolvidas durante o período em que ‘esteve no exterior fazendo o pós-doutorado’. O monólogo desfaleceu a curiosidade dos silenciosos espectadores, que já lutavam contra os cochilos. Então, minúsculos bilhetes começaram a circular, encaminhados ao mais ousado daquela plateia, sugerindo que ele interrompesse o solilóquio monocórdio com alguma pergunta ácida.

Inicialmente, evitando aceitar o papel de algoz, o instigado conteve-se. Entretanto, o palestrante apenas preenchia o tempo com palavras descompromissadas e o porta-voz eleito por unanimidade também perdeu a paciência, ergueu a mão e solicitou o direito de interromper a cantilena.

Como foi escrito acima, não interromper o palestrante estava entre as condições exigidas por ele. Por isso, exasperou-se; quase se enfureceu. O corajoso psicopedagogo aproveitou o silêncio da autoridade autoritária para perguntar: “Qual o título da sua tese de pós-doutorado?”

A fúria saltou pelos olhos do palestrante. Fúria que encorajou ainda mais o inquiridor: “Qual o título da sua tese de pós-doutorado?”

Talvez temendo maiores terremotos ou na esperança de esmagar o insignificante professor com o peso de seu trabalho científico, o palestrante remexeu os papeis sobre a mesa e, depois de olhar energicamente para o interlocutor, leu o que estava escrito na capa do documento:

FUNÇÃO DA DUZENTÉSIMA VIGÉSIMA SÉTIMA LETRA DA PÁGINA TREZENTOS E DOZE DO QUINTO LIVRO DA ENCICOPLÉDIA UNIVERSAL NO CONTEXTO DAS IDEIAS DESENVOLVIDAS NO CAPÍTULO DEZESSETE DO LIVRO DOIS, QUE TRATA DA SÍNTESE EPISTEMOLÓGICA DAS HIPÓTESES DE UNIVERSALIZAÇÃO DOS CONHECIMENTOS DO SER HUMANO A CERCA DA FORMAÇÃO GEOLÓGICA DO PERÍODO INTERGLACIAL

Dentro das condições contratadas, o restante do público manteve o mais absoluto silêncio. O que favoreceu ao porta-voz para emitir uma segunda pergunta: “O senhor está falando da sua tese de pós-doutorado ou do tema que consta aqui na programação do evento?” (E mostrava o prospecto.)

Aí, já era demais! Um professorzinho insignificante questionar os caminhos usados para se chegar às causas das dificuldades de aprendizagem dos alunos…

O palestrante buscou com os olhos o apoio da Presidenta da Associação para rebater a arrogância do insolente, que continuou a molestar: “Pelas suas próprias palavras, fica evidente a distância entre o que esperávamos ouvir como ferramenta para nossas ações educativas e as profundezas do foco de sua tese de pós-doutorado.”

A situação gerou profundo mal-estar na plateia. Apesar da evidente distância entre o tema contratado e a autopromoção do docente da famosa universidade, a maioria dos psicopedagogos reagiu com indignação. Os mesmos que mandaram bilhetes instigando o desmascaramento do convidado bem-pago sem proveito pedagógico se levantaram contra Pedro, como se fosse ele o único insatisfeito com a nulidade da palestra.

A unanimidade mudou de lado. De repente, a plateia levantou-se em defesa da honra do palestrante e exigiu que o insolente se retirasse, em silêncio. Antes de tudo o respeito à hierarquia dos títulos acadêmicos; logo em seguida, a benevolência para com o convidado.

Pedro pôs-se em pé, passou pela mesa oficial do evento e, com olhar cínico, varreu os colegas psicopedagogos. Carregando sua pasta recebida na inscrição para o IX Seminário de Ideias Inovadoras, caminhou resoluto para a porta, chegou ao estacionamento, embarcou no automóvel e foi para casa.

No dia seguinte, recebeu o comunicado de que fora banido da Associação.

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