A ROSA QUE APARECEU

Quando desci as escadas do condomínio, a Cida estava ajoelhada sobre a brita grossa que recobre o pátio do estacionamento. Parecia insensível à dor que, evidentemente, as pedras causavam em seus joelhos e cavava o chão batido com uma velha colher de pedreiro. No meio do buraco que havia aberto, estava um ramo enegrecido de roseira, em cujas pontas, algumas folhas muito verdes insistiam em brotar.

Aproximei-me com o respeito que se deve ter pela emoção intensa vivida por uma pessoa em sofrimento. Ela parecia ter esquecido que tinha joelhos e tentava salvar a roseira dos pisões dos automóveis. O local era bem em frente à entrada da garagem da Brasília dela. Perguntei:

  • Cida, o que você está fazendo? Como se o que eu via não fosse suficiente para explicar a concentração com que ela cavava o cascalho.

Ela ergueu o rosto avermelhado pelo esforço e pelo calor daquele dia de mormaço e explicou com voz embargada:

  • É uma rosa amarela; aqui era o meu jardim. Parece que ela ficou com saudade dos meus tratos e pôs as mãos para fora, me pedindo socorro.

Fiquei calado, reverente diante da profundidade da declaração. E ela continuou a cavar com dificuldade o chão pedregoso. Ofereci ajuda e ela aceitou, mais por impotência diante da tarefa muito difícil do que por julgar que eu teria o devido cuidado com a planta. Porém, percebendo que eu cavava com excessivo vigor e que a raiz avançava para a lateral do buraco, num movimento brusco, arrancou a ferramenta de minha mão.

Lembrei do luto que ela havia vivido, tempos antes, com a morte do papagaio da família. Passei algum tempo a contemplar aquele trabalho exaustivo e persistente. A ternura que ela sentia pela roseira de flor amarela estava toda esculpida naquele rosto afogueado. Comentei:

  • Quando morreu o papagaio, você sofreu muito…

Ela parou repentinamente de cavar e fincou os olhos em mim.

  • Eu gostava muito dele e sinto muita falta da algazarra que ele fazia.

Deixando ela com seus sentimentos e com sua roseira, fui cuidar da minha vida. Quando retornei, ao final do dia, o buraco estava tapado e coberto de brita. Nem sinal da planta. Pensei o pior: que a haste fosse longa e, estando a raiz muito funda e muito fraca, tivesse se rompido.

Dias depois, sorridente, mostrou um canteirinho com uma planta bem verde, rodeada de cascas de pêssego.

  • Cida, ela gosta de pêssego?

  • Pensei em algo que fizesse adubo pra ela. Por quê?  Não pode ser?

  • Ah! Se todas as pessoas se dedicassem à vida com tanto cuidado e com tanta ternura…

 

In CRONICONTOS, página 6-9.

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