QUASE DO ALTO DA MONTANHA

Minha meta era chegar ao topo da montanha. Estava confiante. Sai bem cedo. Muitas pessoas queriam me ajudar nessa empreitada e sobravam ofertas. Bem agasalhado, com os pés protegidos e com o olhar curioso, dei os primeiros passos com vontade de ir longe e por minha conta.

A caminhada inicial foi faceira. Eu andava solto, sem memórias a carregar. Os moradores das duas beiras de estrada me ofereciam frutas e orientações. Por pressa ou por ilusão de desnecessidade, pouca coisa aceitei e segui com determinação.

Nas planícies pontilhadas de casas que abrigavam muitas pessoas sorridentes, os campos cultivados emendavam uns nos outros, preenchendo as distâncias que meus olhos conseguiam abarcar. Ali, não via espaço pra mim; teria de seguir procurando meu lugar.

Como trazia o estômago cheio e encontrava ar fértil para efetivar as trocas gasosas, caminhava resoluto, devorando distâncias, sem analisar meus passos e as infinitas possibilidades de caminhos a tomar. Apenas, pisava firme, seguindo adiante, levantando os olhos, vez em quando, para mirar as escarpas que pretendia alcançar. Ainda, com bem pouco planejamento.

Empurrado pelo entusiasmo, galguei as primeiras elevações, donde poderia avistar os campos adjacentes, mas… nem lembrei de olhar para trás. Urgia andar depressa, pois o relógio de sol deslizava continuamente, sem paradas para beber água.

Subi nos primeiros contrafortes que sustentavam a base da cordilheira e me senti o máximo: um vencedor, para o qual, os obstáculos seriam apenas desafios. Naquele momento, desafio de continuar a escalada rumo ao ápice.

Enquanto a inclinação do terreno exigia pouca obliquidade das solas dos sapatos, mantive a inconsciência da existência de meus pés. Da mesma forma que desconsiderava o derredor e a possibilidade de outros estarem percorrendo trilhas paralelas aos meus rastros ou convergentes ao meu alvo.

A elevação permitia, cada vez mais, vislumbrar paisagens e eu poderia apreciar as belezas primaveris. Mas… era tempo de caminhar… no qual, não cabiam devaneios poéticos: deveria baixar a cabeça e andar e andar e andar…

Andava já com algum peso nas pernas. O ar se fazia menos denso e o calor fustigava minhas costas. A mente perdia as convicções, as ideias começavam a esmaecer e o crescente silêncio afastava comentários e palpites. Pude, assim, continuar minha escalada sem contestações.

As argilas macias pisadas no início da jornada deram lugar a cascalhos, seixos e areião. Acima, avisto saibro, pedras soltas, algumas lajes que se mostram em parte. Terei de ter mais cuidado ao firmar os pés no solo instável; um escorregão pode provocar alguma queda e arranhões doloridos.

Ultrapassadas as primeiras montanhas, encontro pedras firmes, em aclive crescente, que força meus tornozelos e estica as panturrilhas. As dificuldades passam a calibrar o ímpeto de avançar. Começo a analisar atalhos, por critérios de segurança e para economizar energias.

Na planície e nas rampas suaves, eu deixava os braços balançarem as mãos ociosas, mantendo sem esforço o prumo do corpo. Ao transpor as colinas, precisei usar braços e mãos para fazer contrapeso ao desequilíbrio alternado pelos passos sobre o terreno irregular, como um equilibrista sobre o trilho estreito. A velocidade da marcha se reduzia com o aumento gradual de dificuldades. Ao mesmo tempo em que minha soberba definhava.

Restava pouca água no cantil e eu olhava menos para cima. Vez ou outra, parava para contemplar as encostas pedregosas, encobertas mais abaixo por vegetação luxuriante. Todavia, meu objetivo cobrava coragem para prosseguir. Mesmo sentindo cansaço, substituía os ímpetos iniciais por esforços para salvar o orgulho.

Quanto mais alto, mais só e mais fraco. As companhias das planuras, as frutas oferecidas ou disponíveis nas árvores nativas e a brisa agradável foram substituídas por vento inclemente, sol abrasador, espinhos traiçoeiros, pedras roliças e ameaças de quedas acidentais.

Parei e, pela primeira vez, contemplei as lonjuras. Procurei em vão pela trilha que segui. Nada. Nem sinal. Consegui apenas imaginar por onde havia passado. Nenhum sendeiro de brilho deixado pela minha inglória passagem. Sem enxergar pessoas perto das casas; via apenas bovinos esparsos pela pastagem. Os humanos e os ruminantes deveriam ter buscado abrigo nas sombras.

Sombras que eu tanto desejo agora que estou coberto de luz.

Ah! Por que não circulei pela planície com humildade e modéstia? Do alto do meu isolamento, procuro em vão pelas companhias da minha juventude. Os amigos de infância desapareceram quase todos e os que restam estão tão esquisitos, irreconhecíveis. Fomos colegas? Fomos amigos?

Sem colegas, sem amigos, sem vizinhos, sem esperanças, sem futuro… no alto de mim mesmo.

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2 comentários sobre “QUASE DO ALTO DA MONTANHA

  1. Ao caminhar, em alguns momentos eu percebi o meu corpo, naquele trecho em que o narrador percebe os pés. Será que ele sobe a montanha apenas para descobrir a si mesmo? Ele poderia ter feito esta descoberta em meio à confusão das outras pessoas e da sua relação com elas?

    Quanto mais próximo de seu objetivo, o homem se isola, sente-se solitário. Não terá ele descoberto a verdade tão dura de que, mesmo cercados de pessoas, estamos sempre sozinhos, fugindo de nossas próprias solidões?

    Uma dúvida: aqueles bois esparsos na paisagem, por que eles não se esconderam do clima inclemente? Eles tinham esta vontade e não tinham meios para tanto?

    • Sim. Contribuo para o nascimento de perguntas e, também eu, busco respostas.
      Talvez, a diferença entre humanos e bovinos esteja no cerceamento à liberdade; os humanos cercam o gado e a solidão de si mesmos. Aí, ambos ardem ao sol.

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